Sábado, 3 de Dezembro de 2005
UMA HORA (DAS VINTE E QUATRO DE HOJE)
O sino da basílica de Fátima batia as 12 horas quando entrei no recinto, dirigindo-me em passo lento até à Capelinha das Aparições. No altar, o sacerdote inicia a reza do terço. Em pé, mas escutando a oração, saudei a Virgem, "conversei" um pouco com ela no silêncio do meu coração. Acabado o primeiro mistério do terço, é anunciado o 2º., a flagelação do Senhor. De seguida, são enunciadas as intenções, o sacerdote recorda a flagelação da Igreja pelo mundo fora e eu participo na oração até findar o mistério que foi recitado. Recolho-me novamente e saio do espaço da capelinha. Chovia, atravesso parte do recinto, subi as escadas e saí a caminho da Rua Jacinta Marto. Após ter tratado do assunto que me levou a uma casa comercial, fiz o caminho de retorno no mesmo sentido.
Antes de voltar a entrar no recinto, agora pela passagem junto às obras da nova basílica, olho para a esquerda e vejo um crucifixo que ali está colocado há dezenas de anos. Penetro na passagem do Santuário e olho para o tapume que separa as obras do recinto, onde se encontram afixados grandes paineis com desenhos de crianças das escolas e jardins de infância da freguesia de Fátima, tendo por baixo um texto alusivo às memórias da vidente Lúcia. Não sei o que mais me comoveu, se a ingenuidade do traço dos desenhos, se a interpretação feita pelas crianças das passagens dos textos. Forma inteligente de aproveitar o espaço e fazer passar a mensagem da Virgem através das palavras de Lúcia, pensei. Mas, inadvertidamente, ou talvez nâo, ocorreu-me a recente polémica da retirada dos crucifixos das escolas por directiva do Ministério da Educação cumprindo, segundo parece, legislação aprovada anteriormente. Instintivamente, veio-me à memória a lembrança da escola onde fiz a primária. Recordo-me que tinha um crucifixo, um quadro de ardósia preto, um mapa de Portugal e a fotografia de Salazar, para além das carteiras e respectivos bancos. Nesse tempo, eu não fazia ideia o que viria a representar aquele crucifixo pendurado na parede. A verdade é que Ele não mais me largou. Mais de 50 anos passados, eis que alguém de um ministério que deveria ser da Educação e em nome de uma apregoada laicidade do Estado, manda retirar este simbolo cristão das escolas. O Estado poderá ser laico, mas a grande parte da população que elegeu os governantes não é, pelo contrário, são cristãos. Foi isso que disseram mais de 90% dos portugueses numa das últimas sondagens. Afinal, com o devido respeito, quem pensam estes senhores que representam?
Absorvido nestes pensamentos, continuei o caminho até casa, a chuva, miudinha, persistia em cair mas, na verdade, não me incomodava.
Eram cerca de 13horas quando cheguei, havia feito 1 hora a pé, estava cansado, mas satisfeito pela caminhada. Quem diria que a avaria do meu transporte habitual haveria de me proporcionar agradaveis momentos, na verdade, nem tudo é negativo na vida. Se não tivésse o carro na oficina, hoje não teria oportunidade de viver uma hora diferente e proveitosa. Há coincidências difíceis de entender.
Durante o almoço - como habitualmente - acompanhei as notícias televisivas. No meio de tanta informação, ouvi o protesto de um responsável da APEL, Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, dizendo que a proposta de Lei para os manuais escolares tem por objectivo "implementar um sistema de controlo centralizado e estatal de edição com características verdadeiramente estalinistas". A proposta oriunda de um grupo de trabalho formado exclusivamente por pessoas do Ministério da Educação culminará, segundo aquele responsável, no "livro único", referindo que que o âmago da questão está em tudo controlar e tudo proibir, acrescentando ainda que a ministra terá de escolher entre um figurino cubano ou europeu. Pensei para comigo: alguém anda a tentar vender-nos gato por lebre. Por um lado, retiram os crucifixos das escolas - que é um simbolo cristão - pelo outro, querem impingir-nos ideologias opostas e fazem-no inculcando nas crianças esses contra-valores negativos, em meu entender, como é evidente. Sendo assim, desculpem-me uma pergunta ingénua: onde está a laicidade do Estado? Ou será que nos querem reeducar novamente, tal como fez Mao Tse-Tung na China de outras décadas? Será que os portugueses vão permitir isso?


publicado por josedusantos às 00:42
link do post | comentar | favorito

1 comentário:
De Srgio Oliveira a 10 de Janeiro de 2006 às 13:36
Creio que a experiência do autor do blog é muito interessante e enriquecedora na forma humana e interpessoal.

Estes textos vêm trazer aquilo que por vezes precisamos: menos sociedade impingida, mais reflexão, e nada melhor que a abstração material causada pela falta da matéria social e física.

Traduzindo para linguagem comum: é em momentos de ausência da confusão da TV e do consumo que pensamos melhor nas coisas.

Ora vejam que bela reflexão. Quando alguns diriam umas larascas por causa do carro, e mais coisas por causa da chuva, sai este belo texto!

Educação requer na base a família. A família, unidade principal da sociedade, não se consegue sem cruz. Vejamos.

Numa altura em que a sociedade política quer votar o aborto mais uma vez, para aprovar vida sem a chatice dos filhos... Quando se diz que casar é antiquado e bom é curtir quantos mais melhor, e se nao der certo vira-se para o lado... quando quer-se dizer à juventude para curtir o consumo e nesse está a sua felicidade, esquece os valores do velho do teu pai... Bem, sem cruz TUDO FICA OCO. Sem sacrifícios a vida fica sem tempero. Sem filhos não ha reformas!!! Sem filhos vamos ser totalmente colonizados por povos muito interessantes, e corremos o risco de um dia sermos considerados uma espécie rara em reservas, onde um nativo europeu será como hoje se vêem alguns ainda vivos nos restos de civilizações e aldeias em altos de montes isolados nos pirinéus...
E aliás, se eu fosse muçulmano, ortodoxo ou protestante, indú ou agnóstico, gostaria de poder falar livremente os meus símbolos e valores, como uma crus ao pescoço. Acho que somos livres de vestir melhor ou pior.

Senhores políticos, mexam com os valores, deitem-nos abaixo. Sabem quantos traumas e quantos anos anda uma mulher que aborta aborrecida com ela própria, e com faltade autoestima? Pois é, uma amiga de minha esposa foi fazer um aborto, até hoje mudou. Casos raros, poder-se-ia permitir, mas de qualquer forma, nunca.

Vida com valores cresce, o que não significa não haver dor. Vida sem valores..., apodrece.

Resta-me entender e abraçar a cruz de cristo assumindo os meus dias e os meus compromissos, com honestidade, não somente com a ganancia dos homens. Porque já Cristo disse algo como o seguinte: "Sai Satanás, que os pensamentos dos homens não são o pensamento de Deus..." Resta-me entender e de verdade dar o meu abraço de amizade a Cristo, que deu um exemplo de humildade terrena, para merecer algo mais que não vemos por estarmos presos ao corpo e aos sentidos.


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Janeiro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
13
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27

29
30
31


posts recentes

A caminho do centenário

FÁTIMA EM AGOSTO

Cumprir promessas

Oferta de flores à Virgem

A luz da fé

Água de Fátima

Peregrinação Internaciona...

Bispo de Leiria-Fátima vo...

Comunidade Ucraniana em P...

Igreja Paroquial de Fátim...

arquivos

Janeiro 2017

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

tags

todas as tags

Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds