Sexta-feira, 6 de Maio de 2005
ALJUSTREL, UMA ALDEIA ESQUECIDA ?

Aljustrel dista 2 km de Fátima, foi nesta localidade que nasceram Lúcia, Jacinta e Francisco, os pastorinhos a quem Nossa Senhora apareceu no decorrer do ano de 1917. Hoje, Aljustrel é um marco vivo e histórico da cidade de Fátima.


Casa da Jacinta e Francisco.JPG

 

A primeira vez que visitei Aljustrel foi no ano de 1958. Quanto tempo passou.... uma vida inteira. Aquele lugar ainda tinha poucas casas, os habitantes também eram escassos. Tive então ocasião de conhecer algumas pessoas que não esqueci ao longo dos anos, estava ligado ao sector do artigo religioso e o meu trabalho do dia a dia impunha um contacto assíduo com muita gente.

Hoje, recordo que foi um privilégio conhecer a Senhora Maria dos Anjos (irmã de sangue da falecida Irmã Lúcia de Jesus, uma das videntes), mas infelizmente a memória não me acicata algumas conversas que tivemos. Dela guardo a recordação de uma Senhora simples que, pacientemente, explicava aos peregrinos que a interpelavam sobre os mais diversos assuntos. Nunca vi naquela face - já então enrugada - qualquer trejeito de insatisfação, a todos atendia, quantas vezes já cansada de dizer as mesmas coisas, mas sempre com um ar de bonomia que eu admirava.

Também o Senhor João (irmão de Francisco e Jacinta Marto, a quem Nossa Senhora apareceu) que estava em casa dos pais a mostrá-la aos peregrinos e que nos deixou em Abril de 2000. Era um homem sempre bem disposto, com as palavras certas a sair por debaixo daquele bigode que recordo, já um pouco grisalho.  Quantas vezes me ri das suas piadas, era um poço de boa disposição.

O Sr. António (Seco, de alcunha) que tinha uma loja –tipo mercearia - onde vendia os mais diversos artigos e na parede do exterior ostentava a caixa do correio, na qual os habitantes colocavam as suas cartas.

E tantas outras pessoas, umas que recordo, outras nem por isso – como é evidente, tinha relações mais constantes com algumas e dessas, lembro-me melhor. Poderei dizer que conheci muita gente simples e boa. Hoje ainda contacto com os filhos, netos já menos, mas os tempos que correm já são outros, ficou a saudade.

 

Casa da Lucia.JPG

 

Actualmente, o lugar de Aljustrel está diferente, o que é normal. As pessoas que ali viviam noutros tempos eram pobres, viviam do trabalho do campo. Com as Aparições de Nossa Senhora tudo foi mudando lentamente, ali moravam os videntes, as suas casas tornaram-se motivo de visita dos peregrinos e todos aqueles que puderam foram começando a vender alguns objectos religiosos, na tentativa de ganhar algo mais para sustentar as famílias, algumas numerosas. Hoje, o comércio é o trabalho do dia a dia para a maior parte daqueles que lá ficaram e tinham uma casa em zona de passagem de peregrinos.

Da família de Lúcia ainda há dias conversei com a Senhora Maria dos Anjos (sobrinha da vidente), hoje viúva, criou dez filhos e quando falamos dos tempos de outrora e das dificuldades por que passou para criar a numerosa prole, ela não conseguiu evitar algumas lágrimas furtivas que lhe rolaram pela face. Foram tempos bem mais difíceis que hoje.

 

Poco do Arneiro.JPG

 

Agora, vamos fazer uma pequena visita a Aljustrel e conhecer aquilo que ainda temos para ver e recordar. Entramos na rua principal - Rua dos Pastorinhos -, encontramos do lado direito, quase a meio da via, a casa dos pais de Jacinta e Francisco. Apesar de remodelada, está conservada e ainda nos permite imaginar a  forma de viver na altura. Continuamos a andar e deparamos á esquerda com a Casa-Museu de Aljustrel, paredes meias com a casa dos pais da vidente Lúcia. Ali, ainda podemos ver o quarto, o tear, a lareira e já no exterior o curral dos animais. Este curral era outrora do lado direito, junto a uma grande figueira. Nesse lugar hoje está um posto de informações. Seguimos depois o caminho até ao poço do Arneiro, local onde o Anjo apareceu. É usual estar lá uma senhora que dá água do poço aos peregrinos que o desejem.

Novamente pés ao caminho e dirigimo-nos aos Valinhos (cerca de 400 metros), local da 4ª aparição de Nossa Senhora. De seguida podemos visitar a Loca do Anjo, local onde os videntes receberam a primeira e terceira visitas do “Anjo da Paz”. Para quem desejar, poderá ainda visitar a Capela de S. Estevão (mais conhecida por Capela dos Húngaros ou Calvário) que é o corolário da Via Sacra que tem inicio perto da Rotunda dos Pastorinhos.

Rua Aljustrel.JPG

 

Caso pretendam visitar  Aljustrel, mas o tempo seja diminuto, sugerimos a utilização do comboio turístico que de Abril a Outubro parte da Cova da Iria – junto ao parque 10, em frente ao Café Avé Maria - e faz o circuito total. No entanto, aconselhamos uma visita pausada, não só para conhecer as casas dos videntes e os locais onde Nossa Senhora e o Anjo apareceram, mas também para meditar naquilo que O Senhor quis transmitir através de Sua Mãe. É importante fazê-lo com devoção e tentar compreender. A mensagem de Fátima continua actual.

Aparicao Valinhos.JPG

 

Mas vamos terminar, tentando dar um pouco da resposta á pergunta que fazemos na apresentação. De facto, Aljustrel foi um pouco ( talvez muito) esquecida pelo poder local. Claro  que o ideal  teria sido tentar conservar a aldeia como estava, mas a tentativa de valorização dos proprietários, procurando melhores condições para viver e trabalhar e ainda a falta de um plano adequado de desenvolvimento e conservação da traça original das construções por parte da Câmara Municipal de Ourém, deu azo a muitos atropelos urbanísticos. O resultado foi uma descaracterização que hoje é evidente e prejudicou seriamente a história e os vindouros. O saneamento ainda não chegou e há moradores na rua que vai dar ao parque de estacionamento que se queixam da falta de iluminação. Referem mesmo factos de roubo a turistas nesse espaço, o que dá uma má imagem a quem nos visita.

Loca Cabeco - Ap.Anjo.JPG

 

Contudo, há um pormenor que é de justiça realçar. A acção do Santuário de Fátima ao longo dos anos. Se hoje Aljustrel e as zonas circundantes ainda têm uma parte da beleza rural que a caracterizava, isso deve-se á ampla visão dos responsáveis daquela instituição que, não só adquiriram a Casa da Jacinta e Francisco, como compraram a maior parte dos terrenos circundantes entre Aljustrel e Fátima. Assim, foi possível a construção da Via Sacra e a manutenção dos  Valinhos e Loca do Cabeço em condições tais que permitem aos peregrinos que aí se deslocam, uma circulação pedestre segura em plena natureza. A conservação dos terrenos, o seu aproveitamento com a arborização feita, permitiram que hoje exista uma zona verde de grande dimensão, dando aos visitantes o ambiente e a tranquilidade necessárias para fazer as suas orações.

Calvario Hungaro.JPG


publicado por josedusantos às 11:31
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2 comentários:
De SARDO a 10 de Maio de 2005 às 08:58
EXCELENTE ARTIGO, que puxa o leitor para o que interessa em Fátima: ver os problemas ao longe, de forma a que possamos respirar outros ares para alimentar algo mais que há dentro de si: a alma, a outra dimensão que é alimentada quando nos dispomos de forma abstracta para com o materialismo exagerado do dia-a-dia. Como sempre se disse: nem só de pão vive o homem. O nosso egoísmo é que faz pensarmos que só vivemos de pão, tais e tantos os interesses instalados à nossa volta. Essa sociedade marota TEIMA em criar formas de nos escravizar. Vamos tentar ser livres, nem que por um só momento. Fátima, liberdade da alma face às algemas do corpo e do tempo. Intemporal. A Via-Sacra. Verdadeira ligação da Cova-da-Iria geral, até uma caminhada para o mais pessoal. Ser pessoa, estar por momentos verdadeiramente só. Só quem vai à via-sacra num dia calmo... rodeado de natureza, longe do cimento e do homem, mas mais perto de Deus. Sinta a diferença. Deixe-o existir dentro de si. 73, Sérgio Oliveira.


De Filipe Sirgado a 6 de Maio de 2005 às 16:00
Pois é meu caro JOSÈ Eduardo, parece que a nossa Câmara está mais vocacionada para a construção desmedida, não se pode construir onde se devia, e deve construir-se onde nã se pode, talvez devido a muitos interesses algures escondidos ninguém sabe onde.
A prioridade é a construção entre avenidas, até criaram uma empresa na Câmara para tomar conta do problema, será que algum desses senhores que vão tomar conta da dita empresa tem lá algum terreno??? Terá lá por ventura algum interesse??? Nâo sabemos, a ver vamos, como diz o cego.


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